SCALABRINI E OS PILARES DA ESPIRITUALIDADE SCALABRINIANA

“Jesus vive em cada um de nós por meio do seu espírito. O espírito de Jesus é espírito de humildade e de caridade. É espírito de abnegação, de sacrifício e penitência. ” (Scalabrini) 

Estamos vivenciando um ano de reflexão e aprofundamento sobre vida e missão do bem-aventurado João Batista Scalabrini, pai dos migrantes e apóstolo da catequese, que se fez servo obediente no cuidado e acompanhamento aos mais necessitados, em especial aos migrantes. Um homem a frente de seu tempo, que buscou sanar a chaga da migração e dar consolo e segurança àqueles que cruzavam os mares a caminho de uma vida melhor.

Nas suas homilias e catequeses, ele não apenas falava sobre a realidade migratória, além disso, exortava a todos sobre a situação que expulsava milhares de concidadãos italianos para outros países enfrentando realidades de abandono e indiferença. Profundamente enamorado da Eucaristia, Scalabrini depositava toda a sua confiança em Jesus Cristo e não guardava nada de si, nem suas forças físicas nem seus bens materiais. Observando mais de perto a vida e obra do bem-aventurado Scalabrini, que em breve será elevado às glórias do altar, entendemos quando ele dizia que queria fazer-se tudo para todos. Visitou todas as paróquias de sua diocese e por onde passava sempre tinha uma palavra de ânimo e nunca uma reclamação, seja da acomodação ou do alimento que lhe era oferecido.

Dizia que tudo o que temos, podemos, fazemos e esperamos é de Cristo que humilhou-se e se deu a cada um de nós.

O carisma doado por Scalabrini é vivo e atual com uma onda crescente de milhares de homens, mulheres e crianças que cruzam fronteiras terrestres e pessoais para recomeçar e dar sentido a uma nova vida longe de sua pátria e desses familiares.

Ser migrante com os migrantes é fazer a experiência da provisoriedade e da coragem de seguir adiante amparados pelo desejo de ser acolhidos em uma pátria que lhe dê o pão e lhes assegure os direitos e a dignidade. 

Homem de profunda oração tinha três grandes devoções:

AS TRÊS GRANDES DEVOÇÕES

As práticas de devoção de Dom Scalabrini são atos de fé, que o habilitam a ver o Senhor em tudo, escutá-lo continuamente, seja quando fala ou no silêncio da meditação e da adoração, ou quando se exprime através da mediação humana na Igreja, escutando o grito dos pobres, atento aos sinais dos tempos.

Dom Scalabrini foi chamado o Bispo do Santíssimo Sacramento. A intensidade, a ternura, o zelo que ele demonstrou no amor ao sacramento do altar quer evidenciar esta sua devoção que foi tão grande a ponto de nos convencer completamente que sua vida inteira transcorreu sob o signo da Eucaristia e, que o Santíssimo Sacramento, foi a fonte daquele amor de Deus que lhe inflamou o coração. Sua vida foi a Eucaristia, como o foi cada um de seus dias. Dedicou o terceiro Sínodo à Eucaristia e a propôs como sacramento da unidade, primeira e substancial devoção do cristão, razão de ser do sacerdócio, fundamento da Igreja, sobretudo clero, centro da religião, síntese das obras divinas e compêndio do verbo.

Costumava fazer quinze minutos de preparação para a missa e no mínimo, outros quinze de agradecimento. Podendo, assistia a uma segunda missa. Antes de tomar qualquer decisão sobre algo importante, colocava os documentos embaixo do corporal e, após a Santa Missa, tomava decisões seguras sobre assuntos que, muitas vezes, o tinham deixado em profunda perplexidade no dia anterior.

Ao visitar uma paróquia ou seminário, reservava sempre sua primeira e longa saudação para o Dono da casa. Colhia flores para enfeitar o altar. 

A devoção de Scalabrini por Nossa Senhora era terna e filial. Considerou-a inseparável da devoção à Eucaristia. Desde criança teve grande veneração por Nossa Senhora das Dores e aprendeu a rezar o rosário quotidiano, oração considerada por ele como a mais agradável à Maria Santíssima, o memorial das mais estupendas maravilhas, o sinal mais sublime da piedade cristã. Difundiu em toda a Diocese a reza cotidiana desta prece na qual via um meio de unir, em Cristo, todos os membros da família e da sociedade. Dizia com insistência aos sacerdotes: 

Se desejais guardar e aumentar o espírito de piedade, nunca deixeis, em nenhum tempo e por nenhum motivo, o exame de consciência do meio-dia e da noite, leitura espiritual e a reza do Santíssimo Rosário (FRANCESCONI, 1971, 48). 

Ele recitava o terço muitas vezes na cátedra, junto com o povo, para dar o bom exemplo. O amor materno da Virgem é, para Scalabrini, o motivo dominante de sua devoção mariana, e é também o tema principal das numerosas pastorais e homilias, tão cheias de doutrina e filial ternura, que ele dedicou à Mãe Celeste. 

O devotamento de Dom Scalabrini ao Papa abrange um período muito extenso que começa com a Conferência do Concílio Vaticano I, efetuada em 1872 na cidade de Como e se prolonga até as lágrimas que Pio X derramou quando soube da morte do Servo de Deus.

 Suas atitudes foram sempre coerentes com seus protestos de obediência e fidelidade ao Vigário de Cristo: 

Será sempre nosso orgulho pensar em tudo e continuamente com ele, julgar com ele, sentir com ele, agir com ele, sofrer com ele, combater com ele e por ele. Santo Padre falai que será nosso orgulho obedecer, guiai-nos e seguir-vos-emos docilmente, instrui-nos e vossos ensinamentos serão a norma constante de nossa conduta, pois sabemos que só vós tendes palavras de vida eterna.

O cumprimento definitivo do encontro entre Deus e a humanidade, acontecido em Jesus, nos impulsiona a caminhar como Igreja peregrina entre os homens e as mulheres das sociedades de hoje a anunciar-lhes o mistério da comunhão trinitária, pelo qual o diálogo entre o Pai, Filho e Espírito Santo se apresenta a nós como possibilidade e modelo de toda relação. O acolhimento, a itinerância e a comunhão na diversidade são os aspectos específicos que a Igreja nos interpela a testemunhar. 

A devoção a Jesus crucificado está intimamente relacionada com a devoção a Cristo presente na Eucaristia, segundo Scalabrini, a devoção a Cristo Crucificado, fundamento da ascensão pela qual o cristão trabalha, luta, sofre para alcançar a conformidade com Cristo. Não poderemos ter a conformidade interior com Cristo, a essência da vida cristã. Sim, devemos também aparecer em nossos exteriores discípulos de um Deus pobre, humilde, crucificado.

A cruz é a escola de amor mais segura. Ame a Jesus e então você entenderá que o povo cristão, o povo de crentes, é formado apenas por aqueles que honram, que amam a cruz ou morrem nela.

Considerando as cruzes, tribulações, humilhações, desprezo como preciosos meios de santificação. Não reclame, não me entristeça, não me desanime: ofereça tudo em união com as dores de Jesus Cristo. (FRANCESCONI,1985,374)

A vivência da espiritualidade Scalabriniana nos convida a assumir um estilo de vida marcado pela acolhida, itinerância, comunhão na diversidade, esperança e solidariedade indicando ao migrante o caminho a ser percorrido e adversidades a serem enfrentados, mas com a certeza que de que já não caminham sozinhos e desorientados.

ACOLHIDA

O cardeal Kurt Koch escreveu que a acolhida tem um significado tão fundamental, que deve ser contada entre aquelas características fascinantes pelas quais a Igreja de Jesus pode e deve ser reconhecida: a Igreja é a Igreja una, santa, católica, apostólica e hospitaleira. De fato, a história da Igreja pode e deve ser reescrita no sentido da hospitalidade. (TRADITIO,2012,3)

A acolhida é expressão da caridade eclesial, compreendida na sua natureza profunda e na sua universalidade. Esta abraça uma série de disposições que vão desde a hospitalidade, a compreensão, a valorização, que é o pressuposto psicológico para o conhecimento, deixando de lado os julgamentos por uma convivência serena e em harmonia. A acolhida se traduz em testemunho cristão.

O Bem-Aventurado João Batista Scalabrini foi o bom Pastor, de seu povo, foi um homem genial, integrando, no seu governo, a prudência com a firmeza e a suavidade com a fortaleza, enfim um pai de coração grande como o mar. Amou os seus até o fim: seu amor foi caridade, bondade ativa e operante, compreensão e perdão, oferecimento e imolação da vida. Vivendo no meio do povo, compreendeu e compartilhou os sofrimentos humanos e as aspirações sociais dos trabalhadores, dos abandonados e infelizes.

Antônio Fogazzaro assim descreve seu encontro com Dom Scalabrini:

Acolheu-me em seu modesto escritório, com benigna dignidade. Não possuía ares, nem de recordar, nem de esquecer que era um bispo, diante de um simples fiel. Não sei por que sua bela fisionomia, que não me era desconhecida, fez-me, desta vez, uma inspiração nova: recordou-me um pouco Sto. Agostinho, talvez porque recentemente eu havia apreciado aquele ato do testamento agostinianamente lacerado. Tinha a fisionomia bela. Uma fisionomia um tanto máscula, exprimindo certa masculinidade e inteligência, certa aptidão para altos estudos, de fazer temer de encontrá-lo severo, mas tão impregnada de um espírito que demonstrava grande devoção interior a leis superiores: tão arguto para deixar transparecer que sua bondade de modos poderia tomar, de quando em quando, um ar de mofa, sem malignidade, mas com uma certa malícia. (FRANCESCONI, 1991, 130.)

ITINERÂNCIA

Dom Scalabrini foi um homem do seu tempo, não um sonhador nostálgico de épocas passadas e irreversíveis, mas no passo da história atento aos sinais dos tempos, conhecedor realista dos problemas e das exigências dos contemporâneos, voltado a preparar um futuro mais humano e conforme os desígnios de Deus, na história. Enfrentou com coragem e energia as principais questões de seu tempo.

Scalabrini interpretava a missão do ministro de Deus, não como um funcionário vestido de preto ou de roxo, cuidadoso em não negligenciar seus determinados deveres e em não fazer mais do que lhe é devido; não é o bom padre bem quisto pelos liberais, que não sai do templo a não ser para fazer companhia aos pequenos ou grandes burgueses, como descrevem os romances da época. O sacerdote comprometido com a Igreja de jesus Cristo, detesta o ideal burguês e a preguiça, o ceticismo a apatia:

     Sai da sacristia, recomendava a seus sacerdotes, nos nossos tempos, é impossível reconduzir a classe operária à Igreja se nós não nos relacionamos continuamente com ela fora da Igreja. Devemos sair do templo… E devemos homens do nosso tempo…. Devemos viver a vida do povo…. Tomemos em conta das tendências modernas, agindo e chefiando, sem ficar de lado e murmurar. Meus queridos o mundo anda e nós não podemos nos atrasar por causa de alguma dificuldade formalista ou por mal-entendida prudência. É necessário trabalhar, cansar-se, sacrificar-se de qualquer maneira, para ampliar na terra o reino de Deus e salvar almas. Diria até que é preciso que nos ajoelhemos diante do mundo para pedir-lhe como uma graça a permissão de lhe fazer o bem: eis a última ambição do padre. (FRANCESCONI, 1971, p. 26,27)

Nunca se sentia tão feliz como quando podia entreter-se com os humildes considerados os últimos e desprezados pela sociedade. Dizia certa vez:

     Que maior alegria pode haver do que ir ao encontro do dos pobres, orientar os simples, libertar os oprimidos, enxugar as lágrimas dos aflitos, salvar as almas, fazer, enfim, um pouco de bem? (RIZZARDO, 1988, 32).     

Dom Scalabrini não quis ser bispo de gabinete e de escritório, esperando visitas, resolvendo problemas e ditando normas. “O bom pastor conhece suas ovelhas” (Jo 10,40). Por isso, durante os vinte e nove anos de episcopado, visitou por cinco vezes a quase totalidade de suas comunidades paroquiais, pequenas ou grandes, próximas ou distantes, com o objetivo de fazer seus sofrimentos ou alegrias, as esperanças e as decepções, as vitórias e os fracassos do povo que recebera por herança do Senhor:

A mais bela consolação que um bispo pode receber é conhecer de perto seus amados filhos e por eles ser conhecido! Viremos até vós para vos incentivar a prática das virtudes cristãs: a piedade, a concórdia e a paz; para levantar nossa voz na defesa dos oprimidos; para ser amparo dos pobres e o consolador dos aflitos; para acolher os transviados e unir as lágrimas da consolação as do arrependimento, decidido a sacrificar por vós não só a nossa comodidade, o nosso sossego e o nosso descanso, mas também a nossa própria vida! (RIZZARDO, 1988, 22).

Um padre daquele tempo descreve alguns pormenores dessas visitas:

No período em que D. Scalabrini iniciou a primeira visita pastoral, não é exagero afirmar que em mais de duzentas paróquias não era possível chegar senão em lombo de burro ou de cavalo. Deve-se também acrescentar que então, na zona montanhosa, a maior parte das casas paroquiais não estavam em condições de hospedar o bispo e o seu reduzido séquito por uma noite sequer, nem mesmo precariamente. Assim, não lhe era possível passar diretamente de uma paróquia a outra. Por isso, fazia diariamente várias horas de cavalgada. (RIZZARDO, 1988, 23,24)

COMUNHÃO NA DIVERSIDADE

Um dos principais fatores de sua ação apostólica, fundamentada na caridade, foi a procura da unidade das mentes e dos corações e da concórdia nos esforços. O mandamento da unidade ocupou nos seus escritos e discursos tanto espaço e tanta importância quanto é a importância que tem o espaço que ocupa na oração sacerdotal.

Trabalhou e sofreu, não só pela conciliação entre Igreja e Estado, mas pela conciliação dos diversos pontos opostos que determinam a sua personalidade: a caridade e o amor pela verdade; a prudência e a fortaleza; o zelo e a meditação; a ponderação nas decisões e a rapidez na ação; a confiança em Deus e a concepção real das coisas.

A Igreja, disse o apóstolo, é o corpo de Jesus Cristo. Ora, os membros de um corpo são unidos entre si, por uma troca contínua de serviços mútuos. Um membro sustém e ajuda o outro e todos juntos participam dos mesmos bens.

A Igreja é uma família. Ora, todos os membros de uma família são muito unidos entre si, da mesma maneira. O mais fraco se apoia no mais forte, e o mais forte protege o mais fraco. O nome, a fortuna, a saúde de um se difundem sobre todos e formam como uma reserva comum com ele, quando um membro da família sofre, todos sofrem com ele, quando um se alegra todos se alegram com ele. Assim, a família humana é como o corpo humano, um intercâmbio de serviços e funções recíprocas, em mútua união de amor. (SCALABRINI. Uma Voz Atual, 1897, 110).

ESPERANÇA

Scalabrini, com toda sua vivacidade, exorta a sermos ardente na vivência da caridade porque “a caridade tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor13,7). O zelo com o qual devemos viver a caridade remete à chama que produz muito calor, exprime um coração tomado de paixão por Jesus Cristo e pela humanidade. Abraçar com fervor a caridade implica abandonar a vaidade, vivenciar a mansidão, paciência, justiça, temperança. (TRADITIO, 2013, 8). 

Tudo conspira contra o migrante. Frequentemente, suas desgraças começam ainda antes de deixar sua humilde habitação, sob as vestes do agente de emigração que o obriga a partir, fazendo resplandecer diante dele uma conquista fácil de riqueza, envia-o para onde lhe agrada e convém, e não aonde o interesse do emigrante exigiria. Tais desventuras o acompanham durante a viagem, muitas vezes desastrosa, e continuam à sua chegada em regiões assoladas por doenças terríveis, em atividades inadequadas às suas capacidades, sob patrões que se tornaram desumanos pela fome insaciável de ouro ou pelo hábito de considerar o trabalhador como inferior. Assim os males recrudescem sob as mil ciladas que a maldade lhes armara em países estrangeiros, seja porque ignoram a língua e os costumes, seja porque vivem num isolamento que muitas vezes equivale a morte do corpo do corpo e da alma. (RIZZARDO, 1988, p.55)

Não faz muitos dias que um nobre e jovem viajante me trazia a saudação de várias famílias naturais das montanhas de Placência, residentes nas margens do Orenoco: Diga ao nosso Bispo que sempre lembramos dos seus conselhos, que reze por nós e que nos mande um sacerdote, porque aqui vivemos e morremos como bichos!      (RIZZARDO, 1988, p.51)

SOLIDARIEDADE

Dom Scalabrini foi o Bom Pastor, o doutor de seu povo, foi um homem genial, integrando, no seu episcopado a prudência com a firmeza, a suavidade com a fortaleza.  Foi um pai de coração grande como o mar. Amou os seus até o fim: seu amor foi de caridade, bondade ativa e operante, compreensão e perdão, oferecimento e imolação da vida. Muito rígido consigo mesmo, porque vivia o amor com exigência de renúncia, abriu, todavia, seu coração a todos, de modo especial aos pequenos e pobres, despojando-se das considerações formais, banindo o pessimismo e o medo com uma largueza de visão ecumênica e uma previsão de um homem inspirado. Vivendo no meio do povo, compreendeu e compartilhou os sofrimentos humanos e as aspirações sociais dos trabalhadores, dos deserdados, dos infelizes. Não perdeu tempo em lamentações ou recriminações, mas abriu escolas e recintos para recreações e reuniões de jovens. Fundou um instituto para surdos-mudos, organizou assistência aos operários dos arrozais, obras de providência e mútuo socorro, cooperativas agrícolas, bancos católicos, caixas rurais, sociedades operárias, uniões profissionais (FRANCESCONI, 1971, 31,32).

Durante o penoso inverno de 1879-1880, distribuiu, gratuitamente, quatro mil sopas por dia aos famintos, transformando o Bispado em cozinha popular. Para socorrer aos pobres, deu quase tudo o que possuía. Vendeu, por duas vezes, os cavalos que lhe haviam doado, deu roupa de cama, toalhas etc. Finalmente, privou-se também do cálice doado por Pio IX: 

Quando meu povo passa fome o Senhor se agrada, mais de um cálice de lata do que um de ouro ou prata. Foi naquele inverno que disse: “A casa dos pobres o bispo deve ir a pé. Jesus andava a pé entre os pobres da Galileia. Para sustentar os pobres, todos os anos, ele dava mais que toda a cidade, a província e o governo juntos (FRANCESCONI, 1971, 7).

Foi chamado o Bispo das mãos cheias e bolsos vazios. O ecônomo do palácio episcopal, impressionado, disse-lhe: “Se V. Exa. continuar assim morrerá sobre a palha”. E Dom Scalabrini respondeu: “Nada mal que um bispo morra sobre a palha, se sobre ela o próprio Cristo quis nascer” (FRANCESCONI, 1971, 7). Certa vez, levantou-se à meia-noite para receber, no arcebispado, um pobre que estava abandonado na rua. Manteve em sua casa um surdo mudo encontrado congelado ao relento e colocado no cárcere pelas autoridades civis.

     Há vários anos, assisti em Milão a uma cena que me deixou na alma um sentimento de profunda tristeza. Passando pela Estação, vi o salão, os pórticos laterais e sala vizinha tomados por trezentas ou quatrocentas pessoas malvestidas, divididas em diversos grupos. Sobre sias faces bronzeadas pelo sol e sulcadas pelas rugas precoces que a penúria soube imprimir, transparecia a agitação dos sentimentos que invadiam seus corações naquele momento. Eram anciãos curvados pela idade e pelas fadigas; homens na flor da idade; senhoras que arrastavam os filhinhos atrás de si, ou os carregavam ao colo; meninos e meninas…, todos irmanados por um só pensamento e guiados a uma única meta. 

Eram migrantes. Pertenciam às várias províncias da Itália, e com agitação esperavam o trem que os levaria às praias do Mediterrâneo, donde zarpariam para a longínqua América, com a esperança de terem menos hostil a fortuna e menos ingrata a seus suores a terra. Partiam, os pobrezinhos: uns chamados pelos parentes que os haviam precedido no êxodo voluntário; e outros, sem saber para onde, levados pelo poderoso instinto que faz migrar as aves. Iam para a América, onde tantas vezes ouviram dizer, havia trabalho bem remunerado para qualquer pessoa de brações fortes e boa vontade. Com lágrimas nos olhos, tinham-se despedido do torrão nata, que os ligava a si numerosas e doces lembranças. Mas sem remorso abandonavam a pátria, que apenas lhes era conhecida sob duas formas odiosas: o recrutamento e a cobrança de impostos! Pois, para o deserdado, a pátria é a terra que lhe garante o pão; e lá, bem longe, esperavam consegui-lo menos parcimonioso e menos custoso.

Parti comovido. Uma onda de sentimentos tristes me invadia o coração. Quem sabe quantas desgraças e privações, pensava comigo mesmo, tiveram de suportar para lhes afigurar leve um passo tão doloroso. E quantas ilusões, quantos novos sofrimentos lhes reservava o futuro incerto; quantos deles, na luta pela vida, sairiam vitoriosos? Quantos não sucumbiriam no burburinho das cidades ou no silêncio das planícies desertas? E para quantos, mesmo achando o pão do corpo, não faltaria o pão da alma, não menos necessário do que o primeiro, e perderiam, numa vida totalmente materialista a fé de seus pais? (RIZZARDO, 1988, 49,50). 

Hoje, assim como Scalabrini, podemos nos perguntar:

1. Onde é a nossa Estação de Milão?      

2. Em que momento nos sentimos impelidas e abrir o nosso coração para acolher a realidade migratória mundial que afeta os mais pobres e abandonados da sociedade?

Alegra-te, Scalabriniana!

Porque foste chamada

Para acolher e amar.

Aos mais pobres e infelizes,

Dos quais a sociedade se faz algoz.

Assim como a sarça arde sem se consumir,

Abrasa o teu coração.

Assume com alegria a missão 

E aos pobres reparte o pão.

Pão do amor e da dignidade:

Amor que não conhece a desigualdade.

E convida a humanidade a se unir e dar as mãos.

Alegra-te, Scalabriniana!

Pois de cada partida e chegada

Conduz o sonho de tantos em direção à liberdade.

Por isso, alegra-te, Scalabriniana!

Pelo caminho percorrido

Pelo desafio vencido

Pelo sonho realizado 

Pelo rosto enxugado 

Pela vida transformada.

Alegrate, Scalabriniana! 

(Ir. Mariza)

REFERÊNCIAS:

CONGREGAÇÕES SCALABRINIANAS.  Scalabrini. Uma voz atual. São Paulo, 1989.

FRANCESCONI, M. João Batista Scalabrini. Pai dos Emigrantes. Editora São Miguel. Tradução: Irmã Lia Barbieri, 1971.

FRANCHESCONI, Giovanni Battista Scalabrini. Editora Cittá Nuova.1985

RIZZARDO, R. Apóstolo dos migrantes. São Paulo, 1987? 

 JOÃO BATISTA SCALABRINI. ESPIRITUALIDADE DA ENCARNAÇÃO. São Paulo. Tradução: Irmã M. Letícia Negrizzolo, 1991.

TRADITIO, P. Graziano Tasselo, CS 16, 2012,3.

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