Scalabrini – Um santo de olhar profético e ação Transformadora

Ir. Analita Candaten, mscs

Afirma o papa Francisco que “a santidade é o rosto mais belo da Igreja”, “é ousadia, é impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo”. E falar de João Batista Scalabrini, santo, é reconhecer a profunda marca que deixou na Igreja e na sociedade e, por isso, está sendo colocado entre a plêiade de santas e santos de todos os tempos, pessoas que deram testemunho da entrega total de suas vidas a Deus e colocada a serviço dos irmãos.

Para nós da família Scalabriniana, missionárias, missionários, leigos, herdeiros de sua herança carismática, poder invocar Scalabrini santo, Pai dos Migrantes, é uma graça que faz brotar sentimentos de alegria e de gratidão. Por ter sido nosso Fundador santificado em Cristo Jesus, chamado a ser santo (cf. 1Cor 1,2), uma santidade forjada nos meandros da história, rendemos graças a Deus. 

Ao elucidar alguns elementos que o elevam ao grau de santidade, podemos afirmar que todas as suas ações eram movidas pela sua profunda vida espiritual, a qual alimentava a sua intensa ação pastoral. Ele colocou no centro de sua vida Jesus Cristo e isso permitiu que chegasse a reconhecer os traços do mistério de Deus presente nas migrações e em outras situações de seu tempo.  Sua vida foi uma progressiva configuração com Jesus Cristo, baseada numa profunda vida de fé, uma fé firme no espírito, corajosa na língua, eficaz nas obras; de retidão do coração; de constante e total orientação para Deus, que era a alma de sua vida apostólica. Ele mesmo afirmava: “faz-se verdadeiramente por fora, quanto se vive por dentro”. 

O caminho para a santidade

Scalabrini acreditava que o caminho para alcançar a santidade, realiza-se, não através de coisas extraordinárias, mas através da virtude, que se revela em atitudes cotidianas de humildade, mansidão, um coração cheio de caridade para com o próximo e todo amor para com Deus. “Os contemporâneos de qualquer classe e até de religiões diversas, tinham um elevado conceito de Scalabrini, como homem e como Bispo: estimavam-no pela sua inteligência, cultura e capacidade extraordinária de governo, mas sobretudo, pela sua santidade, que emanava de cada uma de suas palavras e de cada um de seus atos”.  

A visão de fé que guiou a sua vida interior e exterior, brotava da meditação assídua da Palavra de Deus e da conversação familiar com Cristo na adoração eucarística. A Eucaristia ocupou um lugar central no seu caminho de santidade e foi um dos aspectos mais profundos de sua espiritualidade. “Era um homem profundamente enamorado de Deus e extraordinariamente devoto da Eucaristia”. Para ele, a Eucaristia é o coração da Igreja, sacramento da unidade, extensão da Encarnação e eleva a pessoa a configurar-se com Cristo. Acreditava que este sacramento é, no mundo espiritual, o que é o sol no mundo físico, cujo calor difunde a fecundidade e a vida. Na Eucaristia Cristo se tornou acessível a todos e habita indiferentemente nas basílicas das grandes cidades, como na rústica igreja que lhe oferece o pobre agricultor. 

Considerava a oração como um diálogo amoroso da pessoa com Deus e afirmava: como um carro, por mais lindo que seja, se lhe falta a força do motor não anda, assim também o nosso coração, se lhe falta o sopro animador do Espírito de Deus, que só pode nos vir da oração, não será capaz de fazer alguma coisa de verdadeiramente grande, nobre e duradouro. Para ele, a oração é a luz, o calor, o alimento, o conforto, a vida da alma humana, a fonte dos bons e grandes pensamentos: perguntem àqueles que creem, é lá que eles encontraram a luz da fé, perguntem aos santos, é lá que eles encontraram os socorros da graça; perguntem aos gênios, é lá que eles encontraram a luz da ciência. A oração transfigura, sublima e diviniza a pessoa. Diante da oração Deus não pode resistir por muito tempo. 

Seu projeto sócio-pastoral

Como homem de Deus, da Igreja, do povo, com um coração de pastor, foi um constante leitor dos sinais dos tempos e das situações migratórias, pastorais, eclesiais, sociais e políticas, com uma atitude atualizada, inteligente e operativa. Tinha uma grande capacidade de dar à sua experiência, à sua ação um amplo conteúdo de pesquisa científica, de análise teórica dos problemas, que em seu tempo teve que enfrentar. Recomendava: “Aprofundai-vos sempre mais no conhecimento das verdades reveladas e em todos os tipos de estudo”. “O mundo caminha e nós não devemos ficar para trás”. 

Encarnou em si as mais profundas aspirações de um momento histórico com olhar profético. Via que as migrações colocavam à Igreja um desafio missionário. Seu coração compassivo o impeliu a dedicar todas as suas forças para sensibilizá-la, a fim de que ela se comprometesse com a causa dos migrantes. Considerado um pioneiro no campo da ação pastoral e social, o seu projeto sócio-pastoral revela sua ação transformadora e também o seu desejo de ser missionário junto aos migrantes. Num discurso aos missionários que partiam, expressa: “apertando ao peito a cruz de ouro do Bispo, docemente, quase me queixo com Jesus, que me negou a cruz de madeira do missionário e não posso deixar de expressar-vos, ó jovens apóstolos de Cristo, a mais alta veneração e sentir uma santa inveja de vós”. O espírito missionário caracterizou toda sua vida, desde o início de sacerdócio.

O ardor missionário

Jamais hesitou em reconhecer a dimensão fortemente missionária do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo e do compromisso da Igreja junto aos migrantes, no contexto das grandes migrações que marcaram seu tempo e seu episcopado. Imerso nas dores, lutas e esperanças de seu povo, especialmente dos que emigravam, soube compreender a história em movimento, interpretá-la à luz da fé, que o levou a ver na emigração um meio de expansão, de disseminação das sementes do Verbo. A atenção em estar no mesmo passo com o mundo que caminha, levou-o a tomar consciência dos fatos irreversíveis da história em constante mudança e introduzir neles o fermento evangélico. 

O ardor missionário marcou toda sua ação pastoral pelo “carisma de totalidade” – “tudo para todos”:  todo tempo, todas as forças, todos os talentos, todos os dons da graça. O quanto possível quer conhecer “in loco” o seu rebanho; o estado de ânimo das pessoas; vai encontrar os seus nas suas casas, nos campos e nas oficinas, nas escolas e nas associações; vai em busca dos afastados da Igreja, disposto a enfrentar dificuldades e críticas. A sua caridade pastoral abraça todas as necessidades e misérias humanas. Dizia: “Devemos sair do templo, se quisermos exercer uma ação salutar no templo”. Afirmou, vigorosamente, que a tarefa da Igreja é a evangelização dos filhos da miséria e do trabalho. “Onde está o povo que trabalha e sofre, aí está a Igreja”. 

E sabemos que mesmo com saúde debilitada, empreendeu duas viagens para as Américas, para visitar os imigrantes que haviam deixado a pátria e os seus missionários e missionárias que estavam ao lado deles. Podemos afirmar que vivia uma fidelidade heróica aos seus deveres pastorais, incansável em suas atividades. Quando tinha clareza do que devia fazer, passava à ação com coragem, calma e confiança em Deus.  

Empenho pela unidade 

Estava fortemente convencido de que a Igreja é sacramento de comunhão. A comunhão que se vive na Igreja, pela virtude do Espírito Santo, é o reflexo e a comunicação da caridade, com a qual, amam-se entre si as Pessoas da Trindade. Na Igreja deve haver unidade de amor, de fé, de governo, de sacramentos. Recomendava a unidade ao povo: “unidade de mente, unidade de coração, unidade de ação. Nos tempos difíceis que atravessamos, não podemos nos sustentar, senão permanecendo unidos”.  E aos seus missionários aconselhava: união de pensamentos, de afetos, de aspirações, como estavam unidos para um mesmo fim. No trato com as pessoas, exerceu muita prudência, generosidade, sabedoria. Era um pacificador, um homem conciliador nas mais diversas situações. Amava a justiça acima de qualquer interesse pessoal e o amor a verdade foi uma das fortes características de sua personalidade. Defendeu e amou a verdade, que o tornou livre na procura da unidade em Cristo e na Igreja.   

Compreendeu o exercício de seu ministério como serviço e governava com inteligência lógica e intuitiva e com muita humildade.  Sabia organizar e dirigir, mas governou mais pelo exemplo do que pelas palavras. No início de seu episcopado disse: “Quanto a mim, devedor de todos, a todos abraçarei com meu ministério, fazendo-me servo de todos pelo Evangelho”. Conhecia a arte de governar e governou a sua Diocese com prudência extraordinária, conseguindo impedir contrastes e aplainar discórdias no meio de seu povo. De modo geral, sua retidão foi reconhecida no final de sua vida, porque haviam desaparecido alguns de seus adversários mais rígidos e ativos e também pela sua obra e seu prestígio.

Em seu ministério também solicitava a colaboração de todos. Tinha colaboradores no governo da Diocese e a eles demonstrou grande estima e afeto. E circundou-se de pessoas eminentes, por sua virtude e ciência, pedindo-lhes conselhos nos casos mais delicados e importantes.  

A vivência da caridade

No desempenho de sua missão viveu a virtude da caridade sem limites.  Na sua consagração episcopal, recebeu do Papa Pio IX o báculo com a inscrição: Charitatis potestas. Ao entregá-lo disse: “Seja esta a regra do seu governo espiritual”. E a caridade, mais do que a regra do seu ministério episcopal, foi também a sua principal característica.  

Testemunhas afirmam que tinha “um coração grande como o mar”.  Deixava-se facilmente comover, deixava-se dominar pelo seu grande coração. O seu amor tornou-se caridade, bondade ativa e operosa, compreensão e perdão, oferta e consagração da vida. Renunciando a si, tornou-se acolhedor de todos, especialmente dos pequenos e pobres.   

Scalabrini praticou a caridade pessoalmente e através de suas obras, mas também mobilizando as pessoas em ações concretas, como em ocasiões de calamidade pública e na terrível carestia causada pelo inverno de 1879-1880. Para ele, os bens pertencem a Deus e só tem valor se colocados a serviço da caridade. Por isso, em momentos de grande dificuldade financeira, não hesitou em vender bens pessoais, como os cavalos, o cálice de ouro, presente de Pio IX; a cruz peitoral, e de transformar a sua casa em ponto de reabastecimento para os pobres e necessitados. Em qualquer obra que tinha a intenção de realizar, os pobres e necessitados vinham sempre em primeiro lugar. Suas palavras não admitiam réplica, porque testemunhadas por uma pobreza que o acompanhou até a morte: Escreveu em seu testamento: “Vim pobre para Piacenza e pobre parto para o outro mundo! O pouco que verdadeiramente me pertence será suficiente para saldar as dívidas e pagar os meus funerais que, peço, sejam muito modestos”. 

Confiança na Providência Divina

Pobre e despojado dos bens, viveu, profundamente, a confiança e o abandono nas mãos da Providência Divina, que vigia, com ternura de mãe sobre as obras por ela iniciadas, como ele mesmo afirmava.  Em meio às contradições, dificuldades e sofrimentos que marcaram o seu episcopado, conservou sempre um espírito de abandono e confiança em Deus. Afirmava: O homem propõe, mas Deus dispõe; o homem se agita, mas Deus o conduz; o homem trabalha e semeia o seu campo, mas o fruto do seu trabalho, quem o dá é Deus. 

Durante toda sua vida se esforçou para “divinizar-se”, transformando a vida, pensamentos e afetos, palavras e atividades, em um só ato de amor: o amor a Cristo. Certamente, isso levou-o no final de sua peregrinação terrena a expressar o desejo de estar com Ele, dizendo: “Senhor, estou pronto, vamos”.  

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